Conferência Episcopal de Angola e São Tomé

NOTA PASTORAL SOBRE OS 40 ANOS DE INDEPENDÊNCIA DA REPÚBLICA DE ANGOLA

11-11-2015

SAUDAÇÃO E RECONHECIMENTO

1. A vós, filhos e filhas da Nação angolana, Povo de Deus: Boas Festas pelo quadragésimo aniversário da Independência de Angola. O Senhor da paz nos conceda a paz em todo tempo e em todas as circunstâncias (cf. 2Tes. 3,16). Este acontecimento de incomensurável nobreza nos leva a erguermos as mãos, a inteligência e o coração em ação de graças a Deus Pai todo poderoso, Senhor e Mestre da história que não abandona os seus filhos e chama todos os povos à libertação de todas as formas de opressão e à salvação plena.

 2. Recordamos com gratidão todos os heróis que despertaram para as suas responsabilidades políticas, independentemente da origem racial, étnica, religiosa e ideológica, alguns dos quais são conhecidos e reconhecidos, muitos outros esquecidos e outros talvez ignorados, não obstante e de diversas maneiras, modalidades e percursos, se tenham sacrificado para que a Nação acedesse à Independência.  De igual modo, não podemos deixar de reconhecer e encorajar a todos quantos, de corpo e alma, e de forma abnegada, continuam a dar o melhor de si para que Angola e os seus filhos assumam alegremente a consciência da sua dignidade e sejam sempre eles mesmos no concerto das nações.

MEMÓRIAS DA HISTÓRIA

3. Há quarenta anos que os angolanos com valentia e honra se livraram do jugo colonial e de toda a espécie de humilhação e exploração. Todavia, para a nossa amargura, a independência, sublime acontecimento, não trouxe, de imediato, a paz, o progresso e o desenvolvimento que sonháramos. Seguiram-se vários anos de uma guerra fratricida que semeou terror, mortes, violência, intolerância, exclusão, ganância, vinganças, separação de famílias, deslocações forçadas, fome, nudez e um desfile sem conta de actos desumanos que provocaram uma paralisia social, cultural, política, moral e económica,  atrofiando drasticamente o desenvolvimento integral dos angolanos. É verdade que, para desembocar nesta situação, contribuíram as desconfianças entre os angolanos, a falta de diálogo, a exaltação do tribalismo, as rivalidades, a exasperação das diferenças ideológicas, bem como  as interferências e ingerências externas. A Angola independente permanecia prostrada de tão ensanguentada e descaraterizada que estava! Marcas da história que moldaram, todavia, a nossa firmeza na esperança, na justiça e na paz.

COMPROMISSO E CONSTRUÇÃO DA PAZ

4. Temos consciência das dificuldades, contratempos e incompreensões que o processo de construção da paz teve. Contudo, com a cessação das hostilidades e o consequente processo de reconciliação nacional eis que surge uma nova Angola; eis que renasce o sorriso e a confiança no rosto dos angolanos. Era, em abono da verdade, a componente que faltava para completar a alegria pela Independência. Sim, com a paz foi possível nos reencontrarmos como irmãos, mantermos vivo o diálogo edificante, dinamizarmos a democracia e o consequente convívio na diferença, renovarmos e relançarmos as nossas bases valorativas e culturais, reconstruirmos as infra-estruturas que a guerra arrasara, permitindo viajarmos por toda Angola para redescobrir a sua beleza e a diversidade cultural dos seus povos e abrirmos as portas ao mundo para oferecermos o que somos e valemos: a nossa nobreza como povo.

5. Todavia, a paz e a reconciliação nunca são uma posse definitiva, mas uma tarefa e um horizonte irrenunciável que exige um trabalho nunca acabado. Por isso, estamos a aprender a renovar a nossa mentalidade, despindo-a de todos aqueles males e preconceitos que nos colocaram de costas viradas uns contra os outros; estamos a aprender a respeitar os direitos e a dignidade dos outros; estamos a solidificar a unidade nacional e a estimular o espírito patriótico; enfim, estamos a construir a verdadeira família angolana na diversidade e beleza do seu mosaico cultural. Para esta empresa Angola precisa de todos os seus filhos e filhas, sem exclusão nem discriminação de qualquer natureza que seja.

6. Neste contexto, cada um de nós, no quadro das suas competências, tem tarefas inadiáveis a cumprir para que os frutos da Independência sejam permanente e copiosamente saboreados por todos: 
•    continuar a investir na reconstrução espiritual e moral de todos os angolanos, enquanto chave para o sucesso de todos os projectos de renovação sócio-culturais em curso, fazendo com que esta data seja comemorada por todos independentemente das suas cores partidárias;
•    trabalhar com afinco na criação de condições para que todos tenham o indispensável para uma vida dignamente humana, repartindo justamente por todos as mesmas oportunidades e os rendimentos que o país produz e, assim, diminuir o fosso profundo existente entre os extremamente ricos e os extremamente pobres, bem como despartidarizando o Estado e o emprego: afinal, à mesa do desenvolvimento todos somos convidados;
•    incrementar e generalizar as escolas de base e os cursos técnico-profissionais e de alfabetização qualificados, para que, duma vez por todas, se vençam as trevas da ignorância e do obscurantismo que mantêm comunidades inteiras aprisionadas nas suas crendices opressoras e atrofiantes, lutando contra as disfuncionalidades do nosso sistema educativo para que os cidadãos assumam as competências necessárias para serem protagonistas do seu desenvolvimento;
•    garantir que todos os cidadãos tenham uma habitação condigna e que as infra-estruturas que se estão a realizar sejam de qualidade duradoira;
•    Habituar-nos a colocar os interesses da Pátria acima dos interesses partidários, promovendo, desta forma, políticas da inclusão, da solidariedade e do reconhecimento do mérito, valorizando e priorizando, os quadros nacionais;
•    Fazer com que a agricultura de subsistência e o comércio rural e a retalho estejam prevalentemente nas mãos de nacionais, evitando assim a  fuga de capitais;
•    melhorar a qualidade da nossa linguagem política, jornalística e artística, para que nos sintamos sempre mais irmãos e necessários para a construção e embelezamento da Pátria;
•    promover o direito à liberdade de consciência, reunião, livre associação, manifestação, expressão e informação, constitucionalmente garantidos, para que tenhamos cidadãos devidamente actualizados e avisados sobre os acontecimentos do País e do mundo, podendo assim exercer uma cidadania consciente, responsável e participativa;
•    criar condições, e onde se torne necessário, facilitar e incentivar os cidadãos a terem o seu Bilhete de Identidade;
•    encorajar todos os cidadãos e, de modo especial, os jovens a honrar a independência com comportamentos e atitudes nobres, tendo em conta que deles depende o bem estar da Nação;
•    enfim, salvaguardar a dignidade da nossa cultura de matriz cristã contra os fanatismos religiosos e contra alguns subprodutos culturais da globalização que procuram banalizar Deus, a vida e a família, com a importação de modelos estranhos à cultura do povo de Angola como, por exemplo, uniões de pessoas do mesmo sexo.

7. Deus Pai, que nos enviou seu Filho Jesus Cristo, Caminho, Verdade e Vida, e nos fortalece pela acção do Espírito Santo, nos mantenha sempre no seu amor e comunhão para que nos sintamos um só com Ele e com os nossos irmãos. Renovamos, por conseguinte, a consagração do nosso País ao Imaculado Coração de Maria, Mãe de Jesus, nossa Padroeira, para que continue a inspirar-nos sentimentos de fé, caridade, obediência, serviço e missão, para que os benefícios da nossa Independência possam favorecer sempre o crescimento harmonioso de todos e garantir a unidade e a reconciliação nacional, o progresso humano e social, a justiça e a paz. O porvir de Angola depende de todos os angolanos.

Mãe de Angola, rogai por nós.


                        Luanda, 9 de Novembro de 2015

                        OS BISPOS DA CEAST