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POR UMA JUSTIÇA ECONÓMICA

Deus destinou a terra, com tudo o que ela contém, para o uso de todos os homens e de todos os povos, de tal modo que os bens criados devem bastar a todos, com equidade, segundo a regra da justiça, inseparável da caridade[1].

I. A Igreja, a justiça económica e o bem-estar social

1. Há dois anos, publicámos a mensagem pastoral titulada “Angola no Caminho da Esperança”, manifestando a esperança no futuro de Angola. Naquela altura questionávamos se o petróleo e outros recursos naturais estavam contra a nossa esperança. Esta pergunta ainda hoje é pertinente e, como sempre, nos preocupamos em como assegurar o bem-estar social do povo. Com a presente mensagem pastoral, damos continuidade à nossa missão de ajudar a construir uma Angola digna para todos os angolanos.
Angola, dois anos depois, está a viver um tempo de graça e de abundância com os espectaculares recursos provenientes das indústrias extractivas, estando-se assim a viver uma oportunidade soberana para erradicar a miséria e as desigualdades sociais. Neste sentido, aplaudimos o compromisso assumido pelo Presidente da República quando disse: “estabelecida a paz e a reconciliação nacional, depois de décadas de conflito, o Governo angolano está agora a promover acções de grande alcance no sentido de reconstruir ou criar de raiz as infra-estruturas que vão permitir a consolidação do regime democrático e o desenvolvimento sustentado da economia nacional, baseado numa economia de mercado com justiça social[2]. Entretanto, pensamos que agora é preciso dar passos concretos para se atingir este desiderato que partilhamos inteiramente.

2. Querendo ajudar a identificar o caminho mais viável para o nosso País, a Igreja oferece à consideração de todos nós os princípios da sua doutrina social sobre a destinação universal dos bens, a opção preferencial pelos pobres, o bem comum, a subsidiariedade, a participação e a solidariedade. Estes princípios “constituem os verdadeiros e próprios gonzos do ensinamento social católico” (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, “CDSI”, 160).
Os princípios permanentes da doutrina social convidam-nos a cultivar uma visão da economia inspirada em valores morais que “permitem nunca perder de vista nem a origem nem a finalidade de tais bens, de modo a realizar um mundo equitativo e solidário, em que a formação da riqueza possa assumir uma função positiva” (CDSI, 174), um mundo mais humano e inclusivo, onde “o progresso de uns não seja um obstáculo ao desenvolvimento de outros, nem um pretexto para a sua sujeição” (CDSI, 175).
É a partir daí que nós, preocupados com a dignidade humana na sua plenitude, pretendemos, com esta Mensagem Pastoral, dar o nosso contributo para uma visão da economia mais equitativa, eficiente, transparente e participativa, de que tanto necessita o nosso País, com base na regra da justiça, inseparável da caridade.
A nossa visão de uma justiça económica quer basear-se, em primeiro lugar, na opção preferencial pelos pobres quando se trata da destinação universal dos bens, visto que a todos nós, cristãos, e não só, nos é mandatado cuidar «com particular solicitude dos pobres, daqueles que se acham em posição de marginalidade e, em todo caso, das pessoas cujas condições de vida as impedem dum crescimento adequado” (CDSI, 182). Neste sentido, o amor preferencial pelos mais pobres não pode deixar de abranger as imensas dificuldades que muitas pessoas vivem, sem esperança de ver melhorada a sua condição de vida.

II. Pobreza e Abundância
3. “É imoral toda a forma de acumulação indevida, porque está em aberto contraste com a destinação universal consignada por Deus Criador a todos os bens[3]. Por isso, “dar o necessário a quem necessita é obra a ser cumprida com humildade, porque os bens não pertencem a quem os distribui[4].
A realidade angolana é deveras sui generis, visto que se vive um grande contras contraste: por um lado, além de sermos privilegiados em água, terra arável, pescas e muitos outros recursos naturais, somos o segundo maior produtor de petróleo na África Subsaariana e o quarto maior produtor de diamantes no mundo; por outro lado, somos um dos países mais pobres do mundo em termos de desenvolvimento humano. Isto concretiza, de uma maneira clara, o fenómeno chamado “paradoxo da abundância”. De facto, esta teoria sugere que os países dependentes dos recursos naturais são caracterizados por um desempenho económico viciado, causador de pobreza, injustiça e conflito.
Na verdade, Angola foi afectada, durante trinta anos, por uma guerra que absorveu muitos dos seus recursos naturais, e não só impediu investimentos nos sectores sociais e produtivos mas até destruiu muitos dos já existentes.
Como resultado, vemos que hoje a grande maioria dos nossos irmãos vivem ainda em condições miseráveis - sem habitação, sem escolas, sem acesso à saúde - ficando assim o nosso país em níveis vergonhosos e injustificados, ocupando ainda o 160º lugar entre os 173 países mais atrasados em desenvolvimento humano. Além disso, a taxa de mortalidade infantil (de 0 aos 5) está fixada em 250 crianças por 1000 nascimentos[5].
Existem grandes desigualdades sociais no nosso País, pois uma grande maioria vive em impressionante pobreza, ao passo que uma escassa minoria vive em luxuosa opulência. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento em Angola, no seu relatório de 2005, observou que o Coeficiente Gini, indicador internacionalmente reconhecido para medir a desigualdade, sofreu um notável agravamento, passando de 0.54 em 1995 para 0.62 em 2000. Portanto, quanto maior for elevado o Coeficiente de Gini, maior será também o estado de desigualdade entre as pessoas. Entretanto, convém dizer que os valores superiores a 0.3 são já indicadores de desigualdades em termos de distribuição da renda nacional[6].
Em 2005, o Produto Interno Bruto de Angola ultrapassou os 2000 dólares per capita. Entretanto, 68% da população angolana vive com menos de 1 dólar por dia cada pessoa, o que significa uma extrema e intolerável pobreza.
As consequências de tais injustiças são claramente visíveis, pois conduzem com frequência à criminalidade, à violência e à prostituição, embora estas desgraças sociais possam ter também outras causas.

4. Mas há motivos de esperança. Olhando para os rendimentos petrolíferos a partir de 2004, podemos verificar que houve uma grande subida nos rendimentos do petróleo, de tal modo que, em 2004, o Governo arrecadou US$ 5,7 biliões (US$ 1,7 de rendimento excedentário)[7]. Em 2005, este rendimento aumentou, tendo o Governo arrecadado US$ 10,5 biliões (US$ 5,0 de rendimento excedentário)[8].
Infelizmente para o presente ano ainda não temos informações oficiais sobre o rendimento do petróleo, mas no workshop sobre a gestão dos rendimentos do mesmo, realizado em Maio de 2006, entre o Ministério das Finanças e o Banco Mundial, foi revelado que, pelo menos até 2011, continuarão a subir vertiginosamente os rendimentos petrolíferos, podendo chegar a US$ 40 biliões nesse ano. Depois começarão a diminuir os rendimentos anuais, que provavelmente acabarão em 2030.
Por isso recordamos aqui o que já dissemos na nossa citada Mensagem Angola no Caminho da Esperança: «É imperioso acautelar também os interesses das gerações vindouras, as quais dificilmente perdoariam o egoísmo da presente geração se esta as espoliasse das riquezas que Deus criou na sua terra para todos os seus filhos e não só para alguns».
Para o sector diamantífero, sabemos que as perspectivas de produção são mais promissoras do que nunca, porque a produção também está em rápido crescimento, de tal modo que, segundo informações oficiais, o Governo, em 2005, arrecadou US$ 930 milhões, deste sector[9]. Tais cifras poderão crescer mais nos próximos anos, visto que já se não venderá só o diamante bruto, mas sim o diamante também polido, havendo assim um valor acrescentado.

5. Importa dizer ainda que, ao lado do sector formal, existe um grande sector informal ou artesanal dominado garimpo, cujos autores operam sem licença oficial. Estima-se que nos anos 2003-2004 trabalharam entre 250.000 e 400.000 garimpeiros no País, produzindo à volta de um terço da produção total de diamantes.
Este delicado problema exige um tratamento adequado, devendo ponderar três considerandos a saber: 1) a ilegalidade do garimpo priva o Estado dos devidos impostos; 2) o tratamento desumano a que os garimpeiros são por vezes submetidos constitui uma grave violação dos direitos humanos; 3) a utilização dos recursos diamantíferos em criar localmente condições de vida que satisfaçam as justas aspirações dos residentes pode vir a resolver muitos problemas.

III. Promovendo o Bem Comum
6. “A responsabilidade de procurar o bem comum compete não só às pessoas consideradas individualmente, mas também ao Estado, pois que o bem comum é a razão de ser da autoridade política[10].
A justiça económica e a paz social só se alcançam seguindo o princípio do bem comum. Este trata exactamente do “conjunto daquelas condições de vida social que permitem aos grupos e a cada um dos seus membros atingir de maneira mais completa e desembaraçadamente a própria perfeição” (CDSI, 164). Este princípio tem muito a ver com a promoção integral da pessoa humana e dos seus direitos fundamentais. Entre as suas exigências, podemos referir exactamente a prestação dos serviços essenciais a toda a pessoa e à pessoa toda.
Na providencial oportunidade que vivemos, o primeiro passo a dar é conseguir uma estabilidade macro-económica, tarefa esta que o Governo já iniciou, tornando-se assim credor do nosso aplauso. A baixa inflação, a estabilidade cambial e o crescimento económico são condições prévias para se combater a pobreza. Mas como foi dito no Relatório Económico de Angola 2005, da Universidade Católica de Angola, isto não deve servir como uma certa miragem que impeça de ver a dura realidade que caracteriza o país[11].
Toda a política empenhada em aplicar correctamente os rendimentos dos recursos naturais passa pelo Orçamento Geral do Estado. Isto, porque o Orçamento é o documento-chave da política do Governo. Ele deve ser compreensivo, abrangendo todas as receitas e despesas, de modo que as necessárias relações entre as diferentes opções políticas possam ser avaliadas[12]. Deve assegurar também uma gestão das receitas de uma maneira eficaz, equitativa e transparente. Uma finança pública bem gerida “produz efeitos virtuosos sobre a economia, porque consegue favorecer o crescimento do emprego, amparar as actividades empresariais e as iniciativas sem fins lucrativos, e contribui para aumentar a credibilidade do Estado enquanto garante dos sistemas de previdência e de protecção social destinados em particular a proteger os mais fracos.” (CDSI, 355).

7. Uma sábia política de investimento é vital para a nossa justiça económica. Ousamos recordar aqui algumas prioridades que devem ser privilegiadas, tais como:
a) criação de serviços públicos, sobretudo no campo da saúde e da educação;
b) apoio ao desenvolvimento da agricultura, com as necessárias infra-estruturas, sobretudo vias de comunicação;
c) assistência social que atenda especialmente as famílias numerosas, os velhos e os doentes;
d) monitoria pública.

No Orçamento Geral do Estado, surpreende-nos a grossa fatia ainda atribuída à Defesa. Enquanto a Educação e a Saúde, em 2006, só receberam 10,7% do orçamento, a Defesa e a Segurança obtiveram a fatia de 14,8% no mesmo orçamento. Em clima de paz, não se vê a lógica desta disparidade.

IV. Acesso à Informação
8. “Os vários sujeitos da comunidade civil, em todos os níveis, sejam informados, ouvidos e envolvidos no exercício das funções que ela desempenha[13].
Se queremos que a democracia iniciada no nosso País possa ter pernas para andar, é evidente que tem de haver participação e não pode ser delimitada ou reduzida a alguns conteúdos particulares da vida social (CDSI, 189). A participação, entretanto, só é possível se houver transparência na gestão da coisa pública e acesso à informação.
Fica claro que a transparência e a partilha de informação são fundamentais para que se atinja o bem comum e a destinação universal dos bens. Por isso, tem que haver transparência nos sectores das indústrias extractivas e sobretudo na gestão e aplicação dos seus rendimentos.

No sector petrolífero, algum acesso à informação tem sido possível, visto que o Governo, no site oficial do Ministério das Finanças, tem publicado alguma informação sobre a quantidade dos rendimentos provenientes do sector petrolífero. Contudo, são apenas alguns passos, faltando ainda dar outros, sobretudo porque precisamos de ter acesso a dados independentes, capazes de confirmar a veracidade dos dados apresentados pelo Ministério das Finanças.
Infelizmente a Lei das Actividades Petrolíferas, Lei n.º 10/04, de 12 de Novembro, no seu Art.º 77.º, continua a exigir o dever da confidencialidade, impedindo as companhias petrolíferas de publicarem os dados ou elementos de natureza técnica e económica. Esta lei está directamente em contradição com o dever de informação e deveria portanto ser alterada no interesse do bem comum.
De qualquer forma, se o diploma legal proíbe as companhias de publicar em Angola o que pagam, deveriam fazê-lo, pelo menos, nos seus países de origem.

9. No sector diamantífero, o assunto é mais alarmante, visto que, oficialmente, o Ministério das Finanças não disponibiliza nenhuma informação detalhada sobre as contribuições fiscais deste sector, tornando-se necessário que se criem condições para haver informações credíveis, passíveis de serem acariadas por várias fontes. A pouca informação que existe no domínio público tem sido disponibilizada pela Endiama e através de pronunciamentos ocasionais de alguns Governantes. A informação deste sector precisa de ser publicada sistematicamente, de uma forma transparente e credível.
A dificuldade de se obterem dados sobre o sector diamantífero não reside só nos rendimentos mas também no acesso à informação sobre as concessões para a exploração diamantífera. Por sua vez, as companhias mineiras que operam no país são aparentemente mais fechadas do que aquelas que operam no sector petrolífero. O primeiro passo que precisa de ser feito para iluminar este sector é a realização dum diagnóstico do mesmo sector, tal como foi feito no sector petrolífero pelo Ministério das Finanças e a KPMG em 2004.
Para fortalecer e garantir tanto a transparência como o acesso à informação, é preciso que o Governo participe activamente nas iniciativas internacionais sobre questões de transparência, a exemplo da Transparência nas Indústrias Extractivas iniciada pelo Governo Britânico em 2002. Angola não seria o primeiro país a dar tal passo no continente Africano, pois outros países já fizeram o mesmo, como por exemplo a Nigéria.
Olhando para o Orçamento Geral do Estado, onde realmente se efectiva a redistribuição da riqueza, podemos dizer que a participação, a transparência e o acesso à informação estão também aquém do desejável. É verdade que a qualidade do Orçamento Geral do Estado tem melhorado nos últimos anos, depois da guerra, mas todas as quatro fases por onde passa o processo orçamental ainda têm aspectos bastante problemáticos, particularmente no que tange ao acesso do público.
Na primeira fase, a da elaboração, não se tem nenhuma informação oficial tornando-se assim impossível ao público participar activamente nesta fase. A segunda fase, a da aprovação, também está relativamente fechada. Mas os maiores problemas estão na falta da publicação dos relatórios de execução trimestrais e semestrais. Assim, o público não tem nenhuma garantia de que o orçamento fique executado tal como foi aprovado pela Assembleia Nacional. Bastante problemática é também a limitada fiscalização e auditoria do Orçamento Geral do Estado, que estão dificultadas pela ausência de uma Conta Geral do Estado.
É portanto fundamental que continue o melhoramento do processo orçamental em Angola, dum modo especial em relação à abertura de tal processo, para facilitar a activa participação da Sociedade Civil.

V. A nossa Visão de uma Justiça Económica e Social

10.“Quando damos aos pobres as coisas indispensáveis, não praticamos com eles grande generosidade pessoal, mas devolvemos-lhes o que é deles. Mais que cumprir uma obra de misericórdia, saldamos um débito de justiça”[14]. «Não se dê como caridade o que já é devido a título de justiça[15].
Com as palavras de S. Gregório Magno e do Concílio Vaticano II acima referenciadas, podemos concluir que o nosso apelo para uma justiça económica e social nos obriga não só à caridade mas também à justiça, tendo bem presente a dimensão social e política do problema da pobreza que tanto assola os nossos concidadãos. Por isso, como discípulos de Jesus Cristo, lançamos o nosso apelo pedindo o seguinte:

10.1. Os abundantes rendimentos colhidos estes anos, através dos recursos naturais que Deus outorgou a todo o Povo angolano, sejam universalmente utilizados no combate à pobreza e à miséria de tantos irmãos nossos, acabando com o escândalo do paradoxo da abundância, e tendo em conta não somente as gerações presentes mas também as vindouras.
10.2. Os recursos públicos sejam aplicados de uma maneira equitativa, eficaz e transparente, observando as regras estritas da sua aplicação.
10.3. Além dos sectores da educação, saúde e agricultura, as províncias e as famílias sejam particularmente beneficiadas através do OGE, no projecto insubstituível do bem comum.
10.4. Procure-se uma monitoria social de todos os investimentos e despesas públicas, afim de que as distribuições orçamentais atinjam mais eficazmente a sua aplicação.
10.5. Torne-se cada vez mais aberta, transparente e participativa a gestão da economia, tanto nos sectores extractivos como no processo orçamental, e procure-se descentralizar e desburocratizar a economia, tendo em conta o princípio da subsidiariedade.
10.6. As companhias não só petrolíferas mas também mineiras em geral partilhem realmente a responsabilidade da transparência publicando, aqui ou nos seus países de origem, não só os pagamentos que fazem ao Governo mas também as condições dos contratos que regulam as suas actividades.
10.7. Por sua vez, a exploração dos recursos naturais não descure a urgente conservação do meio ambiente, que está a ser degradado com uma frenética desarborização em certas zonas do País.

Que a Padroeira de Angola, cuja solenidade hoje celebramos, abençoe esta Mensagem e todos aqueles que a acatarem com autenticidade.

Luanda, 28 de Outubro de 2006
Os Bispos Católicos de Angola


[1] CONCILIO VATICANO II, Const. Past. Gaudium et spes, 69: AAS 58 (1966) 1090. Citado pelo Compêndio da Doutrina Social da Igreja, Pág. 104
[2] Agência de Notícias (Angop), 1 de Setembro de 06, “Passo decisivo nas relações com a Venezuela”.
[3] Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 328
[4] Idem, 329
[5] Francisco G. Carneiro, Angola Workshop on Oil Revenue Management, Maio 2006
[6] http://mirror.undp.org/angola/nhdr2004.htm
[7] http://www.minfin.gv.ao/dni/petroleo/expetmen_2004.pdf
[8] http://www.minfin.gv.ao/dni/petroleo/execprev2005.pdf
[9] Cfr. Primeiro-ministro, Fernando da Piedade Dias dos Santos, citado pela AngoNotícias. (http://www.angonoticias.com/full_headlines.php? id=10862)
[10] Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 168.
[11] UCAN 2006: Relatório Económico de Angola 2005, Pág. 5

[13] Compêndio da Doutrina Social da Igreja, Pág. 115, Parág. 190
[14] S. Gregório Magno, Regula pastoralis, 3, 21: SC 382, 394 (PL 77, 87), citado pelo Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 184
[15] CONCÍLIO VATICANO II, Decr. Apostolicam actuositatem, 8: AAS 58 (1966); cf. Catecismo da Igreja Católica, 2446, citado pelo Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 184

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dos bispos de ceast

O DESAFIO DAS PRÓXIMAS ELEIÇÕES EM ANGOLA

A todos saudamos e convidamos a partilhar connosco a alegria no Senhor pela celebração dos 30 anos da nossa independência.

1. A IGREJA E A POLÍTICA “

Conhecedora da Humanidade, a Igreja, sem pretender de modo algum imiscuir-se na política dos Estados, ‘tem apenas um fim em vista: continuar, sob o impulso do Espírito Consolador, a obra própria de Cristo vindo ao mundo para dar testemunho da verdade, para salvar, não para condenar, para servir, não para ser servido’ 1. Fundada para estabelecer já neste mundo o reino do céu e não para conquistar um poder terrestre, a Igreja afirma claramente que os dois domínios são distintos, como são soberanos os dois poderes, eclesiástico e civil, cada um na sua ordem. Porém, vivendo na história, a Igreja deve ‘estar atenta aos sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho’ 2. Comungando nas melhores aspirações dos Homens e sofrendo de os ver insatisfeitos, deseja ajudá-los a alcançar o pleno desenvolvimento e, por isso, propõe-lhes o que possui como próprio: uma visão global do Homem e da Humanidade” 3.

Certamente, pois, não compete à Igreja indicar as soluções técnicas para os graves e complicados problemas sociais, políticos e económicos. Mas, perita em humanidade, a Igreja é impelida necessariamente a alargar a sua missão religiosa aos vários campos em que os homens e as mulheres desenvolvem as suas actividades em busca da felicidade, sempre relativa, que é possível neste mundo, em conformidade com a sua dignidade de pessoas4. A Igreja não opta por nenhum partido político, mas chama a atenção para que toda a política seja conduzida para o bem de todos, sobretudo dos mais desfavorecidos. Por isso, queremos dirigir-vos, caríssimos irmãos e irmãs, uma palavra breve sobre o desafio das próximas eleições, assinalando sobretudo alguns aspectos que nos parece fundamental ter presentes considerando não só as expectativas mas também as tensões, os medos e os excessos que caracterizam semelhantes momentos.

 2. IMPORTÂNCIA DAS ELEIÇÕES E VALOR DO VOTO

As eleições devem permitir que o povo escolha as pessoas e os programas que considere mais bem indicados para a governação durante determinado período, tanto a nível dos órgãos centrais do Estado como a nível local. Daí a necessidade de eleições locais ou autárquicas, cuja importância queremos sublinhar aqui. Todas elas permitem que o povo participe da vida da Nação de uma maneira cada vez mais plena. Por isso, o voto de cada um tem um valor muito alto: ele pode ajudar tanto a escolher as soluções mais convenientes como a fazer as escolhas mais infelizes. Tudo depende da qualidade do voto.

3. ELEIÇÕES COM LIBERDADE E TOLERÂNCIA

Para realizarem eleições justas, os cidadãos precisam de liberdade. Só assim terão a consciência tranquila para colocarem o seu voto nas pessoas, nos partidos e nos programas de governação que a cada um parecerem melhores. A liberdade desta escolha deve ser respeitada como direito sagrado de todo o cidadão, sem aliciamento de espécie alguma. Também por isso, o voto é individual e secreto. Esta liberdade, no entanto, supõe que haja tolerância: o facto de alguém ser de um partido diferente ou de defender ideias também diferentes não significa que seja inimigo. Devemos, sim, respeitar-nos uns aos outros e nunca prejudicar ninguém. E assim, se for necessário, procuremos resolver os nossos conflitos pelo diálogo e pela mediação. No caso de estes meios não resultarem, depositamos a nossa confiança na isenção dos órgãos judiciais para resolver qualquer pendência. Para isso, recomendamos aqui o mandamento do amor, que recebemos do Senhor: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos.

4. ELEIÇÕES COM TRANSPARÊNCIA

Sabendo que uma das razões dos conflitos eleitorais são as desconfianças sobre a existência de processos viciados e de fraudes, manda a prudência que tudo deve ser feito com transparência. Por isso, pedimos e esperamos de todos os intervenientes na condução do processo um esforço desinteressado, imparcial, democrático e favorável à paz. Em síntese, as eleições devem ser livres e justas. E para isso, devem ser imparcialmente esclarecidas. Mas não o poderão ser, sem uma informação suficiente e pluralista. Donde a exigência democrática de liberalizar os meios de comunicação social. Rogamos a Deus, Verdade Suprema, para que todos nos deixemos iluminar pelo Espírito da Verdade!

5. SOBRE OS RESULTADOS DAS ELEIÇÕES

Desta maneira ficarão limpos de toda a mancha aqueles que vencerem, e aceitarão pacificamente os resultados aqueles que não tiverem vencido. As divergências a este respeito sejam resolvidas através dos meios legais e políticos - nunca fora destes - e tenha-se em conta não o interesse individual ou de grupo, mas o de toda a Nação Angolana, sobretudo dos mais fracos e pobres, que são a maioria da população, desejosa de paz. Assim demonstraremos a nós mesmos e ao mundo a nossa maturidade. Por isso, insistimos que as eleições devem ser sempre em vista do maior bem para todos. Quem as vence assume a responsabilidade de cumprir o que prometeu e mesmo de fazer mais e melhor do que prometeu. E quem as não vencer, aceite o exercício da oposição, como um serviço insubstituível em todo o regime democrático.

6. PRÓXIMAS ELEIÇÕES: UM GRANDE DESAFIO

Muito desejamos que estas nossas palavras de Pastores da Igreja ajudem os ânimos para a boa condução de todo o processo das próximas eleições. Reconhecemos que a perspectiva das próximas eleições constitui para muitos angolanos motivo de inegável apreensão, devido à tragédia subsequente às primeiras eleições. É papel de todos os políticos restaurar a confiança nas eleições democráticas, o que já começou a acontecer com a sua maior maturidade política, com a unificação dos dois exércitos antagónicos, com o seu compromisso de paz até agora fielmente observado, com o desarmamento em curso, e outras razões congéneres. A vós, filhos e filhas católicos, militantes dos diferentes partidos políticos e com responsabilidades no Estado, exortamos, de uma maneira particular, a manter, com firmeza e sem tibieza, viva a vossa fé e actuantes as vossas convicções cristãs, pois grande influência podeis ter em todo este processo.

7. ELEIÇÕES COM ESPERANÇA E CONFIANÇA “

Se trabalhamos e lutamos, é porque colocámos a nossa esperança no Deus Vivo, Salvador de todos, mas sobretudo dos que têm fé” 5. É com esta fé que convidamos todos a renovar a nossa confiança e a olhar o futuro com optimismo, pois muito esperamos que as próximas eleições venham contribuir para melhorar as condições de vida do Povo angolano. Que o Imaculado Coração de Maria, Padroeira de Angola, nos conceda uma Paz duradoura no Amor e na Justiça! Luanda, aos 15 de Novembro de 2005 Os Bispos Católicos de Angola

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