Conferência Episcopal de Angola e São Tomé

PERANTE A SITUAÇÃO ACTUAL

1. Introdução

Paz e Democracia são dois valores político-sociais que se exigem mutuamente. Não pode haver verdadeira paz sem democracia, nem verdadeira democracia sem paz.
Daqui, as frequentes guerras que ainda assolam alguns países do nosso Continente
Não é segredo para ninguém que, nos últimos dias, o País tem registado uma certa agitação, sem consequências alarmantes, é certo, mas com indícios suficientes para alertar a vigilância de quem de direito e de dever.
A paz é filha da reconciliação, e a reconciliação é filha da verdade, que não disfarça os deméritos nem esconde os méritos de quem os alcançou.
As nossas relações familiares e sociais devem ter um farol a orientá-las. Este farol chama-se “verdade”. Tão importante é a verdade que Jesus Se identificou com ela, dizendo expressamente: “Eu sou a verdade” (Jo 14, 6). E a maior recriminação que Ele dirigia aos seus adversários era a falta de verdade, que os tornava filhos do diabo, pois o diabo é “mentiroso e pai da mentira” (Jo 8, 44).

2. A verdade e a comunicação social

A comunicação social tem a nobre tarefa de divulgar a verdade. Conhecer esta é um direito do público, e dá-la a conhecer é um dever da multimédia.
Esta tarefa deve ser exercida com nobreza e dignidade. Como? Transmitindo a verdade sem a despir dos seus próprios contornos e sem a vestir com artifícios fabricados por interesses inconfessáveis. A liberdade de opinião confere a todo o cidadão o direito não só de manifestar a sua própria opinião, mas também de conhecer a opinião dos outros, oportunamente divulgada.
Aqui radica a liberdade de imprensa em qualquer das suas formas. O respeito pela verdade não se compadece com o sensacionalismo nem com espécie alguma de manipulação noticiosa.
É preciso evitar toda a roupagem literária que venha a deformar a verdade noticiada.

3. A Verdade e a Justiça

Se a verdade faz justiça à inteligência, a justiça respeita a verdade nas suas relações humanas, entre as quais há não poucos muros a derrubar.
É imperioso que ninguém seja vítima da exclusão nas oportunidades da vida. Urge criar condições para que todo o angolano tenha, pelo menos, as condições económicas que são necessárias a uma vida digna da pessoa humana. Quanto à ocupação de terras, a justiça distributiva exige que não haja monopólios latifundiários e, talvez, improdutivos, com exclusão de possíveis ocupações produtivas, e a consequente falta de acesso aos mais essenciais recursos alimentares. A justiça exige que os povos não sejam privados da terra necessária à sua sobrevivência.

4. Estruturas apartidárias

Há estruturas sociais que, por sua natureza, devem ser apartidárias e, portanto, independentes de qualquer conotação com este ou aquele Partido. Tais são os cargos da função pública.
Por isso, os professores, médicos, enfermeiros e quaisquer outros funcionários devem ser nomeados com isenção partidária, sem qualquer discriminação selectiva.
Outro tanto se diga das Forças da Ordem. Estas não foram instituídas para proteger um Partido, mas para defender o povo, seja qual for a sua filiação partidária. Agir de outra maneira é ignorar a democracia ou, senão mesmo, assassiná-la.
A propósito, queremos recordar aqui que a Igreja não pode ser instrumentalizada por Partido algum. Nem sequer por aquele que exerce o poder. A Igreja é mãe de todos os seus baptizados, e respeita as suas opções políticas, desde que elas se não oponham aos princípios da sua fé.
Por sua vez, a voz de um Padre só por si não representa a Igreja, nem tem mais autoridade do que a mesma doutrina por ele exposta.

5. Conclusão

Finalmente, cumpre-nos recordar que os partidos devem estar ao serviço da Nação e, portanto, do Povo, mas não vice-versa. Por isso, aliciar o voto do povo com promessas que de honestas nada têm é rebaixar a dignidade do Partido e do próprio Povo, fazendo deles um produto de compra-venda.

 

Praza a Deus que, em quaisquer actos eleitorais, todos saibamos ter em conta as considerações expostas.

Que o Coração Imaculado de Maria a todos nos abençoe. Amém!

Luanda, aos 22 de Março de 2011.